Tuesday, December 05, 2006

My Every Day Life - Pt. 2

Ana sempre me acusa de pensar demais, só porque li, e gostei, do último romance de Paul Auster, só porque às vezes eu ouço Mozart e, outras vezes prefiro Madonna. Só porque há dias em que estou introvertido e fico admirando, em silêncio, a vista que se descortina da janela do meu quarto. É tão pouco, tão comum, nada tem de extraordinário; mas essas coisas a sufocam. Nessas horas, prefiro estar sozinho. Pêra, seio, Ana – a associação, no entanto, insiste em me desafiar.
Ana sabe que faço Judô, que sou viciado em minha musculação, que nado muitas braçadas na piscina, mas nada disso a impressiona. Não gosta da espera, da busca delicada, sem sofreguidão, enfim da lentidão (nestes aspectos, sou mais feminino que ela); não suporta que eu esteja em dúvida, que eu prefira esperar.
Ana é dessas mulheres que pensam que homens jamais esperam, que são todos imediatistas. Só a procuro quando estou a perigo, quando não me suporto mais, quando não posso mais conter o que o corpo me pede – não agora, que estou pensativo e lento. Deixo os dedos deslizarem pela borda da agenda, margem cheia de dentes decorados com letras. Caio no Y, de Yvone, de quem mais? Algo me diz que talvez seja bom procura-la. Mas, neste caso, sou eu quem, ao contrário, temo as ilusões de minha amiga. Yvone está sempre à espera de alguém, algum sujeito meio mundano, e até um pouco bruto, que substitua o príncipe encantado que, ela sabe, não existe. Mas será que sabe mesmo? Se a procuro, logo passa a se comportar como uma costureira louca que, a qualquer custo, quisesse provar em mim suas fantasias.
Submeter-me a seus sonhos. É dessas mulheres encantadoras, mas sufocantes – como as cavernas escuras que visitei nos Andes.Você volta para a luz do sol com um gosto que mistura o prazer e a morte. O pior é que, no caso de Yvone, a partir daí, mesmo que você tenha permanecido todo o tempo quieto, ela irá tirar lições. Irá concluir: que quero isso, que quis dizer aquilo, que lhe sugeri (sem ter a coragem de sugerir) tal ou quais coisas, que pensei desta ou daquela maneira. Mulheres como Yvone tiram excessos de conclusões. Não conseguem ver um homem como ele é. Muitas vezes, um homem não tira conclusão alguma, não sabe de nada; quer apenas ser.

1 Comments:

At 8:10 PM, December 07, 2006 , Blogger Floco de Neve said...

Bom!

 

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