Friday, February 26, 2010


andei dizendo pelos ares
tem um caminho na minha pedra
e me rendeu.
são tantos e pra tantos lados, que chego a achar que minha pedra não acaba nunca.
e nunca demora.
tinha um caminho, específico, que eu deveria ter seguido.
e não me amarguro de me arrepender. deveria mesmo. e hoje ele foi pra nem sei onde.
se perdeu dentre os outros que me surgiram e se entrecruzaram.
vocês me atrapalharam caminhos, foi tão rápido que nem pude te seguir.
escorregou por entre meus pés e logo se foi. pisei em ovos.
nem bato no peito e digo que nunca me arrependi das coisas que fiz.
me arrependi sim, e foram muitas. preciso acreditar que teria feito diferente.
ainda bem que o tempo não volta. senão eu não andava.
queria ter ficado ali por mais um tempo e deixei escapar o que agora nem me toca.
e nem me atrevi a pisar nele de novo. e me arrependo.
como era macio, mais macio ainda como o lembro.
ah! me tocas de raspão. e te abro a mão, caminho. nem ouso a te pisar.
um caminho que não acho mais na minha própria pedra.
não tinha placa, aviso ou mata burro. peguei um atalho e caí num abismo.
acontece.
tem toda uma história que a vida gira e que nada volta atrás.

ah, vai pro inferno! crio meu mundo pra não ter que dar conta desses outros.
perdão aos caminhos que cruzaram os meus. pisei em um que não sei onde vai dar.
queria mesmo era não me arrepender.

Wednesday, February 17, 2010


quero uma casa muito engraçada
mas que tenha tudo, não aquela que não tem nada
que tenha tanta coisa que eu me perco dentro dela
que tenha corredores que levem a todos os lugares, paris, japão, tibet.
e me leve também pra quartos nunca antes descobertos.
quartos escuros com abajur janelas redondas e varandas pro infinito.
e que tenham cachoeiras descendo de minhas varandas, pra eu descer de bote.
vistas para um céu eterno em que eu possa ver tudo, até mesmo dentro das pessoas.
e tão alto que dê pra subir nas costas de animais voadores.
quero também uma máquina de café que lê pensamento, que faça café pra sempre. toda hora. e um café com tanta cafeína que dá até overdose. convenientemente, é claro.
e quero que tenha um despertador que só toque na hora que quero acordar e que me acorde com uma canção do milton nascimento. ou melhor, quero que o milton nascimento vá me acordar no meu quarto cantando ao pé da minha cama. melhor ainda, um afago.
é preciso também uma banheira com água corrente e que seja do tamanho que eu quiser. com uma espuma que também lave a alma, e um shampoo que faça minha cabeça.
que eu possa ser outra pessoa depois de um banho. e um espelho que reflete o que ninguém mais vê.
preciso de uma internet que não só me conecte ao mundo, mas cabos de fibra ótica que me carreguem pra qualquer lugar que aparecer no google earth. clico aleatoriamente.
e um computador que nunca pifa.
quero uma cadeira que me faça massagem. e uma cama que me adormeça em sono profundo e me traga sonhos de outros planetas, com pessoas de quatros braços e cobertas de cinza, destruindo e recriando mundos.
colocarei no quintal um escorregador em queda livre, com uma distância suficiente pra eu nao conseguir respirar mais e levar tanto susto a ponto de achar que vou morrer, mas ter a certeza que não. e cair em uma nuvem e lembrar que viver é bom.
uma gangorra que me balance com o ritmo da brisa e faça balançar também meu cabelo e que eu possa largar as mãos sem cair, e levantar o braços com leveza. e da gangorra ver um pé de fruta qualquer, que nasce a fruta que tiver que nascer, e que caem do pé suavemente e rolem na grama. pra alimentar o mundo, e eu.
e quero que do porão apareçam coisas esquisitas, bizarras, tão estranhas que eu não possa acreditar que existam.
pra eu nunca perder a capacidade de me espantar.

e quero também que faça um silêncio profundo, tão em paz que eu possa pensar em tudo, e desvendar o mundo.
e criar teorias que revolucionem a história da humanidade.
e um ar puro, que jamais foi respirado antes, pra eu sentir a natureza como ela é.
e sentir o poder.

Saturday, February 13, 2010

meus tantos brasis


meus brasis são assim.

acabei de sair de dentro de uma bateria de bloco de rua, de dentro mesmo, porque me sentia em cima do bumbo, kicando.
que vibração! que coisa! que sem nome!
sinto uma energia vendo aqueles homens suando em bicas fazendo seus instrumentos vibrarem, e a mesmo tempo que batem com muita força que parece que vai estourar, sinto que batem com a força necessária para seu instrumento entender e responder, como se estivesse recebendo um carinho. só vendo. ou melhor, só estando dentro.
no brasil tem muita coisa ruim, mas tem tanta coisa boa, e tantos paradoxos que fico confusa. nao sei o que penso.
tem carnaval, tem bateria, tem excesso, tem desrespeito, tem desvario, tem energia, tem descontrole, tem alegria.
hoje mesmo minutos antes de me dissolver no bloco, vi um homem urinando na porta de uma igreja patrimonio cultural e sacro do planeta, que foi construída com o suor de pessoas de cores lindas que trabalhavam enquanto ele ainda nunca podia sonhar em existir. pessoas que construíram esse país carregando pedras nas costas.
que lamentável. senti uma tristeza profunda, e isso nao é coisa que se briga, porque se nasce com isso, com orgulho de nossos negros e nossos suores. sinto escorrer em mim também.
bateria tem alegria, urina na igreja tem desrespeito. fico inquieta.
escuto daqui ainda os tambores e voltei pra casa porque tive vontade de segui-los pro fim da vida. ia me perder pra sempre, claro. me policio.

minha vó zica se referia ao carnaval como 'um bando de preto batendo lata'.
é isso mesmo vó! um bando de preto brilhando batendo uma lata que vou te contar! uma coisa sem escola, sem curso, sem precedente. é ritmo, vó! energia, sentimento, música, força! isso nao se aprende em lugar nenhum, é coisa nossa mesmo.
vem de dentro.
pena que voce já morreu vó, porque senão eu ia te contar que nao é qualquer um que pega uma lata e bate, e bate no coração do povo, e lança alegria pelos ares e faz todo mundo que existe querer pular sem aviso.
é uma pena vó, que nunca tive a chance de pelo menos bater uma lata pra voce, pra senhora ver que dá vontade de arrancar a lata da mão do outro, e sair batendo que nem louco, fazendo gente feliz e construindo um brasil!


me ajuda. como eu vou dormir com essa bateria aqui na rua?
logo ali, na minha cabeça, e faz tremer até meu coração

pensando bem, vou voltar pra lá.
de pijama mesmo.

Thursday, February 11, 2010

in set

introduzi palavras no meio:
o que importa é a altura do seu pulo! a sagacidade com que enfrenta os buracos!
já dizia eu mesmo
todos os papéis foram invertidos por mim
me afetei, quis chorar, disse do que eu sentia e pensava
e ainda enfatizei:
nunca nesta história havia me colocado, havia dito o que eu pensava sobre tudo isto aqui, mas agora eu quero
e disse mesmo
e da minha preocupação, que observei real a todo instante
pensei: porque nao posso dizer do que sinto? se estou aqui porque sinto
nao quero que nada me afete
retruquei pra mim mesmo: eu quero! quero afetar o mundo em contrapartida!
nunca quis ser invisível, eu já sabia
transformei minhas palavras e soltei ao vento: como viver sem se afetar?
é possivel?
por favor, é possivel?
me enchia com essa história de possibilidades.. do que era e nao era possível
era sempre assim, isto é possível pra mim? nãaao
e isto? isto sim!
e me enchi.
mas agora acho até que concordo um pouco. mudo de idéia como quem muda de adereço.
viver sem se afetar? nao é possível.

algo da história ali se inscreveu e outras possibilidades se entreabriram
me desenchi. ou des-enchi.
inclusive pra mim, minhas palavras foram marcadas pra sempre, e estão ao vento
ao relento, desprotegidas e afetadas.

por ora, foi, passou.
tudo isso.

Thursday, February 04, 2010


tem uma pedra no meu sapato
tem um sapato na minha pedra
tem um sapo na minha garganta
tem uma garganta no meu pescoço
tem um caminho na minha pedra
tem um olho nas minhas costas
tem um ceu a minha espera

um desastre tem
um desespero tem
um deletério tem
um desvio tem
delito tem tambem
e tem deleite
muito

pra sempre nao tem
tem um buraco na estrada
que joga gente pra todo lado
uma esquina torta
e tem uma placa
que avisa
nao tem amigo
tem aviso

nao tem volta