Thursday, December 14, 2006

Crônicas de um mundo paralelo

O Buraco Sugador de Cabeças

No fundo do mar, vive ele. As vezes no raso também, depende. Habita qualquer mundo de água salgada, e não perdoa nada. É o grande buraco sugador de cabeças! Diretamente no mundo paralelo onde só existem cabeças, ele se aproxima silenciosamente, sente a cabeça se aproximar e suga! E ela desaparece sem deixar vestígios, rumo ao abismo negro do mundo das cabeças perdidas. O que pouca gente sabe é que há muito tempo atrás somente as cabeças habitavam o mundo, porém a cruel dinâmica da evolução das espécies fez com que a partir dessas cabeças surgissem os corpos. E a seleção natural se impôs severamente sobre o pobre mundo das cabeças. Acuadas e sem perspectivas, elas foram em busca de um mundo onde poderiam viver em paz. E assim, paralelamente ao nosso mundo, construíram uma terra cujo acesso só pode ser conseguido através do temível buraco sugador de cabeças. Porém, no nosso mundo não é possível ter somente um corpo e o buraco se torna então sinônimo de crueldade e horror, arrancando cabeças de crianças, idosos e de quem quer que ele encontre distraído vagando pelos nosso mares. Quantos tubarões já não foram injustamente acusados quando na verdade as cabeças eram arrancadas pelo negro e cruel Buraco Sugador de Cabeças!

Tuesday, December 05, 2006

My Every Day Life - Pt. 2

Ana sempre me acusa de pensar demais, só porque li, e gostei, do último romance de Paul Auster, só porque às vezes eu ouço Mozart e, outras vezes prefiro Madonna. Só porque há dias em que estou introvertido e fico admirando, em silêncio, a vista que se descortina da janela do meu quarto. É tão pouco, tão comum, nada tem de extraordinário; mas essas coisas a sufocam. Nessas horas, prefiro estar sozinho. Pêra, seio, Ana – a associação, no entanto, insiste em me desafiar.
Ana sabe que faço Judô, que sou viciado em minha musculação, que nado muitas braçadas na piscina, mas nada disso a impressiona. Não gosta da espera, da busca delicada, sem sofreguidão, enfim da lentidão (nestes aspectos, sou mais feminino que ela); não suporta que eu esteja em dúvida, que eu prefira esperar.
Ana é dessas mulheres que pensam que homens jamais esperam, que são todos imediatistas. Só a procuro quando estou a perigo, quando não me suporto mais, quando não posso mais conter o que o corpo me pede – não agora, que estou pensativo e lento. Deixo os dedos deslizarem pela borda da agenda, margem cheia de dentes decorados com letras. Caio no Y, de Yvone, de quem mais? Algo me diz que talvez seja bom procura-la. Mas, neste caso, sou eu quem, ao contrário, temo as ilusões de minha amiga. Yvone está sempre à espera de alguém, algum sujeito meio mundano, e até um pouco bruto, que substitua o príncipe encantado que, ela sabe, não existe. Mas será que sabe mesmo? Se a procuro, logo passa a se comportar como uma costureira louca que, a qualquer custo, quisesse provar em mim suas fantasias.
Submeter-me a seus sonhos. É dessas mulheres encantadoras, mas sufocantes – como as cavernas escuras que visitei nos Andes.Você volta para a luz do sol com um gosto que mistura o prazer e a morte. O pior é que, no caso de Yvone, a partir daí, mesmo que você tenha permanecido todo o tempo quieto, ela irá tirar lições. Irá concluir: que quero isso, que quis dizer aquilo, que lhe sugeri (sem ter a coragem de sugerir) tal ou quais coisas, que pensei desta ou daquela maneira. Mulheres como Yvone tiram excessos de conclusões. Não conseguem ver um homem como ele é. Muitas vezes, um homem não tira conclusão alguma, não sabe de nada; quer apenas ser.

... e ninguém aqui vai notar que eu jamais serei a mesma.